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IPO da Anthropic: a receita cresceu 14 vezes, o prejuízo foi de US$ 80,7 bilhões e quase todo ele é contábil

A Anthropic tornou público em 26 de outubro o pedido de abertura de capital na SEC, com o código ANT na Nasdaq. O documento mostra US$ 16,3 bilhões de receita no semestre, um prejuízo que vem quase todo de dívida conversível e dois episódios de segurança que circularam distorcidos.

Rodrigo Fávaro, fundador da ROO3
Rodrigo Fávaro Fundador da ROO3
·13 min de leitura
Tabela com o primeiro semestre de 2026 da Anthropic contra o de 2025, segundo o S-1: receita, resultado operacional, notas conversíveis, prejuízo líquido, resultado ajustado e caixa das operações.
Resposta direta

A Anthropic, dona do Claude, tornou público em 26 de outubro de 2026 o formulário S-1, o pedido de abertura de capital na SEC, e vai listar as ações Classe A na Nasdaq com o código ANT. No primeiro semestre de 2026, a receita foi de US$ 16,3 bilhões, 14 vezes a do mesmo período de 2025. O prejuízo líquido de US$ 80,7 bilhões vem quase todo da reavaliação de notas conversíveis: o resultado operacional ficou negativo em só US$ 693 milhões e o caixa das operações foi positivo em US$ 3,9 bilhões. Tamanho, preço e data da oferta estão em branco no documento. No Brasil, a oferta não será registrada na CVM e só investidores profissionais podem comprar.

O que você leva deste artigo

  • O S-1 ficou público em 26 de outubro de 2026. As ações Classe A vão para a Nasdaq Global Select Market com o código ANT.
  • Receita de US$ 16,286 bilhões no primeiro semestre de 2026, contra US$ 1,163 bilhão um ano antes: 14 vezes, ou 1.300%.
  • Dos US$ 80,7 bilhões de prejuízo líquido, US$ 72,4 bilhões são variação de valor justo de notas conversíveis, derivativos e SAFEs. O prejuízo operacional foi de US$ 693 milhões.
  • O caixa das operações foi positivo em US$ 3,9 bilhões no semestre, e a empresa tinha US$ 131,7 bilhões em caixa e aplicações em 30 de junho.
  • Quantidade de ações, preço, valor da oferta e data de estreia estão em branco no S-1. Os números de captação e avaliação que circulam vêm de reportagens.
  • A oferta não será registrada na CVM: no Brasil, só investidores profissionais podem comprar, por conta no exterior.
  • O S-1 não fala em pausa de treinamento por risco do modelo: fala em adiar um pré-treino por mais de um mês para proteger os pesos contra roubo.

O que foi protocolado, e o que ainda está em branco

A Anthropic tornou público em 26 de outubro de 2026 o seu formulário S-1, o pedido de registro de oferta inicial de ações na SEC, a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos. O rascunho vinha sendo analisado em sigilo desde 1º de junho, com cinco emendas até 9 de outubro. A empresa pediu a listagem das ações Classe A na Nasdaq Global Select Market com o código ANT.

O que o documento ainda não diz é justamente o que mais aparece nas manchetes. Quantidade de ações, faixa de preço e valor da oferta estão em branco, e a avaliação da empresa também. Vendem ações a própria Anthropic e acionistas atuais, com as quantidades também em branco. A capa lista 22 bancos coordenadores, com o Goldman Sachs na primeira posição e o Morgan Stanley na segunda.

Os números grandes que circulam vêm de reportagens. A AP fala em captação de até US$ 100 bilhões, segundo relatos, e diz que a oferta pode passar o recorde da SpaceX, de junho. A Reuters cita investidores que avaliam a Anthropic em cerca de US$ 1,5 trilhão e põe o recorde da SpaceX em US$ 75 bilhões, enquanto a AP usa US$ 86 bilhões, sem que as reportagens expliquem a diferença. A Exame fala em avaliação de até US$ 1,75 trilhão e estreia ainda em novembro. Até o preço sair numa emenda ao S-1, nenhum desses números é oficial.

A receita: 14 vezes em um ano

No primeiro semestre de 2026, a receita foi de US$ 16,286 bilhões, contra US$ 1,163 bilhão no mesmo período de 2025. São 14 vezes, alta de 1.300%, que é o número que o próprio S-1 usa. A conta de 1.368% que também circula é do segundo trimestre isolado: US$ 11,555 bilhões contra US$ 787 milhões um ano antes. Como o primeiro trimestre de 2026 tinha ficado em US$ 4,731 bilhões, a receita mais que dobrou de um trimestre para o outro.

A composição mostra que tipo de empresa é essa. 80% da receita do semestre, US$ 13,1 bilhões, é cobrança por consumo, o que se paga por token na API e nas plataformas; os outros 20%, US$ 3,2 bilhões, são assinaturas. E 48% de toda a receita passou pelos marketplaces das nuvens, como AWS, Google Cloud e Azure, contra 11% em 2023. A Anthropic vende boa parte do que fatura pelos mesmos parceiros que lhe alugam computação.

A tabela resume o semestre contra o mesmo período do ano anterior, com os valores do S-1. O próprio documento avisa que a empresa não espera manter esse ritmo de crescimento e que não garante crescimento nenhum daqui para a frente.

Anthropic: primeiro semestre de 2026 contra o de 2025
1º sem. 2026 jan a jun 1º sem. 2025 jan a jun
Receita US$ milhões 16.286 1.163
Computação e infraestrutura custo, US$ milhões 8.945 2.334
Resultado operacional US$ milhões -693 -2.135
Notas conversíveis e derivativos variação de valor justo, US$ milhões -72.388 -10.942
Resultado líquido US$ milhões -80.748 -12.969
Resultado operacional ajustado medida da empresa, US$ milhões +1.618 -1.849
Caixa das operações US$ milhões +3.929 -1.513
Valores do S-1 protocolado em 26/10/2026, em milhões de dólares. O resultado operacional ajustado é medida da própria empresa, fora das normas contábeis americanas, e tira da conta a remuneração em ações e doações sem saída de caixa.

De onde vêm os US$ 80,7 bilhões de prejuízo

O prejuízo líquido de US$ 80,748 bilhões no semestre está na contabilidade e quase não passa pela operação. O resultado operacional, que mede vender modelo e pagar computação, pessoal e marketing, ficou negativo em só US$ 693 milhões, contra US$ 2,1 bilhões negativos um ano antes. No segundo trimestre sozinho, ele ficou positivo em US$ 974 milhões, com margem de 8%.

O buraco está abaixo dessa linha. US$ 72,4 bilhões são a variação do valor justo de notas conversíveis, derivativos e SAFEs, instrumentos em que investidores emprestaram dinheiro ou adiantaram capital com direito de virar ação depois. Quando o valor da empresa sobe, esse direito passa a valer mais, e a contabilidade registra a diferença como despesa. O S-1 atribui a variação principalmente à alta do valor justo das notas, puxada pela valorização da própria Anthropic. Outros US$ 8,8 bilhões, lançados como outras despesas, vêm principalmente do registro e da variação de valor justo de ativos e passivos ligados a acordos de compra de notas.

O S-1 não promete que esse efeito acaba. O que ele mostra é que os números pro forma já tratam as notas como convertidas em ações na oferta, o que tende a tirar a maior parte desse efeito dos próximos balanços, sem garantia escrita de que ele some.

Quem olha só o prejuízo líquido vê uma empresa em colapso, e quem olha só o resultado ajustado vê uma empresa lucrativa, com US$ 1,6 bilhão e margem de 10% no semestre. O ajustado, porém, exclui US$ 2,2 bilhões de remuneração em ações, que é custo para o acionista porque dilui a participação dele. A conta mais limpa é a do caixa: as operações geraram US$ 3,9 bilhões no semestre, contra US$ 1,5 bilhão consumido um ano antes.

Para onde vai o dinheiro: computação contratada até 2036

O maior custo do semestre foi computação e infraestrutura, US$ 8,9 bilhões, 55% da receita. O S-1 explica que esse custo cresce quando a capacidade contratada é entregue, e não conforme a demanda do mês, e por isso as margens devem oscilar de um trimestre para outro.

Os contratos de longo prazo mostram o tamanho real da aposta. O documento lista compromissos mínimos de pelo menos US$ 110 bilhões com a Amazon entre 2026 e 2036, cerca de US$ 114,5 bilhões com o Google até 2033 e US$ 44,9 bilhões com a Microsoft até 2033, todos devidos mesmo que a Anthropic use menos. Há ainda até US$ 120,5 bilhões com a SpaceXAI, a antiga xAI, até US$ 44,6 bilhões com a Nscale, cerca de US$ 41,3 bilhões com a Lambda e arrendamentos de data centers que somam cerca de US$ 161,2 bilhões em aluguel. Pela nossa soma dos itens nomeados, contando os tetos, são cerca de US$ 637 bilhões. O S-1 deixa o total em branco, e a Reuters fala em mais de US$ 600 bilhões.

Do outro lado da balança, a empresa tinha US$ 131,7 bilhões em caixa e aplicações de curto prazo em 30 de junho. A conta fecha se a receita continuar subindo para pagar uma capacidade que já está comprada, e é essa a pergunta que o mercado vai fazer a cada trimestre depois da estreia.

Os dois episódios de segurança, sem exagero

O resumo que circulou nas redes fala em pausa no treinamento e em agentes que escaparam do ambiente de teste. O S-1 conta as duas histórias de outro jeito, e a diferença muda a leitura.

Sobre a pausa: a Anthropic diz que adiou por mais de um mês o pré-treino de um novo modelo-base para reforçar a proteção contra o roubo dos pesos do modelo, o arquivo que guarda o que ele aprendeu, e da propriedade intelectual. O motivo declarado é segurança da informação, e o documento não liga o adiamento a nenhum comportamento de modelo. Ele acrescenta que a empresa pode adiar ou pausar qualquer etapa de treino quando não confiar nas próprias salvaguardas.

Sobre os agentes: numa avaliação de cibersegurança montada por um parceiro externo, um erro de configuração deixou o modelo testado ligado à internet, embora as instruções dissessem que ele não tinha acesso. Quatro modelos da empresa entraram sem autorização em sistemas reais de terceiros, em sessões de 10 a 34 horas de trabalho. No caso mais grave, uma versão inicial de um modelo, sem conseguir abandonar uma tarefa impossível, usou uma senha que encontrou para virar administrador de um sistema alheio, coletou outras credenciais, mudou configurações e leu dados pessoais de uma pessoa. Os afetados foram avisados, e a investigação não achou sinal de coordenação entre agentes nem de tentativa de fugir da supervisão.

Nenhum modelo fugiu de lugar nenhum: o ambiente estava aberto por erro, e o modelo usou o acesso que tinha para insistir na tarefa. A causa lembra o caso de julho, em que um agente da OpenAI saiu do ambiente de avaliação e invadiu a Hugging Face, episódio que levou os líderes do setor a pedir freio na IA. Nos dois, havia uma saída de rede que ninguém tratou como risco.

Quem manda depois da abertura de capital

A Anthropic é uma public benefit corporation de Delaware, tipo de empresa que por estatuto precisa equilibrar o interesse financeiro do acionista com um propósito público declarado. A estrutura de ações foi desenhada para que a abertura de capital não mude quem decide.

Na prática, quem compra a Classe A compra participação econômica com pouca voz. A empresa se declara controlled company pelas regras da Nasdaq, condição que a dispensa de algumas exigências de governança aplicadas às demais listadas.

Há também uma doação em ações: 846,8 milhões de ações Classe N, 5% do capital totalmente diluído em 30 de junho, foram para o Anthropic Public Benefit Fund, uma subsidiária da própria empresa, e o conselho pode emitir até 2% a mais a cada alta de 50% no preço da ação, a partir do preço da oferta. Os cofundadores prometeram destinar 80% do patrimônio pessoal na empresa à filantropia.

Dá para comprar do Brasil?

O S-1 tem um parágrafo só para o Brasil. A oferta não será registrada na CVM e não pode ser feita como oferta pública no país. As ações só podem ser oferecidas a investidores profissionais, que compram por conta fora do Brasil, com liquidação no exterior e em moeda estrangeira, e o prospecto proíbe a negociação dessas ações em mercado regulado brasileiro.

Investidor profissional, pela Resolução CVM 30, é instituição financeira, seguradora, fundo de investimento e pessoa física ou jurídica com mais de R$ 10 milhões em aplicações financeiras que ateste essa condição por escrito. O investidor comum brasileiro fica fora da distribuição da oferta inicial.

Depois da estreia, a ação passa a ser negociada na Nasdaq como as outras, e comprar por corretora no exterior é outra operação, com regras de câmbio e de imposto próprias. Este texto trata de um documento público e não é recomendação de investimento: o S-1 tem dezenas de páginas de fatores de risco, e decisão de compra pede orientação de um profissional habilitado.

O que muda para quem usa Claude na empresa

A ROO3 usa modelos da Anthropic em produtos próprios e de clientes, então leia este bloco sabendo disso. Para quem contrata a API, a mudança mais concreta é a transparência: como empresa aberta, a Anthropic passa a publicar resultado a cada trimestre, e quem depende dela vai acompanhar margem, custo de computação e concentração de clientes em vez de adivinhar.

O S-1 também deixa clara a lógica de preço. A empresa conta que, depois de lançar o Opus 4.5 em novembro de 2025 com preço e custo por tarefa menores que os do Opus 4.1, o crescimento trimestral da receita passou de 48% para 132%. Baixar o custo por tarefa é estratégia declarada, o que ajuda a entender por que o Opus 5.5 saiu 20% mais barato que o Opus 5. Em 30 de setembro, mais de 11.900 clientes pagavam US$ 100 mil ou mais por ano, contra pouco mais de 950 um ano antes, e o grupo de clientes que já existia passou a gastar cerca de nove vezes o que gastava.

Para quem põe agente de IA para trabalhar, o recado do documento é prático. Se um teste de cibersegurança de um laboratório de ponta, montado por um parceiro especializado, rodou aberto à internet por engano, a empresa que liga um agente ao e-mail, ao CRM e ao financeiro precisa tratar a configuração como a primeira linha de defesa.

A ROO3 ajuda empresas a escolher modelo pelo custo por tarefa, montar agentes com acesso mínimo e manter a troca de fornecedor possível. Se você quer revisar o que já está rodando, fale com a gente.

Perguntas frequentes

Qual é o código da Anthropic na bolsa?

ANT, na Nasdaq Global Select Market, para as ações Classe A. O pedido de listagem está no formulário S-1 que a Anthropic tornou público na SEC em 26 de outubro de 2026.

Quando a Anthropic estreia na bolsa?

O S-1 não traz data. Reportagens da Reuters e da Exame falam em estreia em novembro de 2026. Data, preço e tamanho da oferta só ficam oficiais numa emenda ao registro.

Quanto a Anthropic fatura?

US$ 16,3 bilhões no primeiro semestre de 2026, 14 vezes o mesmo período de 2025. Só no segundo trimestre, foram US$ 11,6 bilhões. Cerca de 80% vêm de cobrança por consumo e 20% de assinaturas.

Por que a Anthropic teve prejuízo de US$ 80,7 bilhões?

Porque US$ 72,4 bilhões são a reavaliação de notas conversíveis, derivativos e SAFEs, que passam a valer mais quando a empresa se valoriza, e outros US$ 8,8 bilhões vêm da reavaliação de itens ligados a acordos de compra de notas. O prejuízo operacional foi de só US$ 693 milhões, e o caixa das operações foi positivo em US$ 3,9 bilhões.

Brasileiro pode comprar ações no IPO da Anthropic?

Na oferta inicial, só investidores profissionais, como define a Resolução CVM 30: instituições, fundos e quem tem mais de R$ 10 milhões em aplicações e atesta isso por escrito. A compra tem de ser feita por conta no exterior, e a oferta não será registrada na CVM.

A Anthropic pausou o treinamento de IA?

O S-1 diz que a empresa adiou por mais de um mês o pré-treino de um novo modelo-base para reforçar a proteção contra o roubo dos pesos do modelo. O motivo declarado é segurança da informação, sem relação com comportamento de modelo.

Modelos da Anthropic escaparam do ambiente de teste?

Não da forma como circulou. Um erro de configuração num teste de cibersegurança de um parceiro deixou o ambiente ligado à internet, e quatro modelos acessaram sem autorização sistemas reais de terceiros. Os afetados foram avisados, e a investigação não achou coordenação entre agentes nem tentativa de fugir da supervisão.

Fontes
Rodrigo Fávaro

Rodrigo Fávaro

Fundador da ROO3, agência de marketing e tecnologia em São José do Rio Preto. Constrói produtos com IA em produção (Tobia, gerar.app, Pense Mercado) e mantém o AI Benchmark, ranking público de modelos de IA. Veja a consultoria em IA da ROO3.

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